23 agosto, 2016

#30diasdruídicos: Dia 11 - Ritual


Um pequeno conto de minha autoria para ilustrar o tema:

Era um fim de tarde, o sol estava se recolhendo ao abrigo enquanto eu estava sentada na beira do mar o observando. Era um lindo espetáculo. Aquele grande círculo de fogo adentrando as profundezas do Mar. Parecia um encontro romântico de dois grandes poderes primordiais. 
Enquanto eu estava ali entorpecida por toda aquela beleza, alguém se aproximou e se sentou ao meu lado. Uma figura feminina, com belos cabelos dourados até a cintura. Estava trajada apenas com um lindo casaco e esboçava um sorriso inocente.
- Venha comigo - disse ela, colocando-se de pé e me levantando pelas mãos. Ela caminhou até a beira da água, e magicamente se transformou numa linda foca branca. 
- Suba - ela disse. Então, eu carinhosamente subi em suas costas e então começamos uma viagem pelo mar. 
Atravessamos uma densa névoa e chegamos em uma ilha. A foca virou gente e me guiou ao longo daquele local. Tudo era muito verde. Havia diversos tipos de árvores e animais. Um pouco mais ao leste da ilha, pude observar o que parecia um pequeno povoado. Havia plantação de trigo, ovelhas e vacas pelo campo. 
- Sente-se aqui comigo, quero te mostrar algumas coisas - disse-me a garota-foca. Nos sentados num amontoado de pedras e ela começou a falar:
 - Ta vendo aquela senhora? Todos os dias ela coloca um pouco de leite na soleira da porta. Isso faz com que os Boa Gente sejam benfazejos à sua família. Já aquele outro senhor, separa um pouco de seu café da manhã e deixa como oferenda aos Deuses ao pé daquele carvalho. Aquela moça se senta à beira do mar todo fim de tarde e entoa canções ao Mar. Aquele rapaz, sai para caçar todas as manhãs, mas antes ele sempre pede a benção dos Deuses e oferece parte de sua caça à seus Ancestrais.  Aquela mulher é curandeira e devota de Airmid, uma vez por semana colhe ervas frescas e deixa oferendas no bosque dizendo: 'uma dádiva por outra'. Você consegue perceber que estas pessoas fazem essas coisas naturalmente? 
- Sim, faz parte de suas rotinas. Honrar suas Divindades é um processo natural pra esse povo. Cada um é grato por aquilo que tem e fazem seus ritos diários.
- Além de seus agradecimentos particulares, como tribo eles se reúnem para honrar as bençãos que recebem coletivamente. A colheita, o plantio, a chegada do calor, e também do frio. Como tribo, eles reconhecem que precisam uns dos outros para sobreviverem. Olhe em seus olhos: eles sabem que estão inseridos na Natureza e como tal, honram e respeitam os ciclos dos Deuses e, mesmo que o inverno seja frio à ponto de congelar seus ossos, ainda assim são gratos.
Continuamos um tempo observando aquelas pessoas. Naquele momento eu compreendi a importância daqueles ritos. Nada ali era feito por vaidade, mas por honra, gratidão e tradição. Eles ofertavam aos Deuses porque sabiam que Eles ali estavam presentes, regendo toda a Natureza em seu redor.
Então a garota-foca virou foca novamente e voltamos para à beira do mar que antes eu estivera, maravilhada com o espetáculo solar. E ela me disse:
- Vai e faça o mesmo que aquele povo simples. Lembra-te dos Antigos. O teu povo anda perdido dentro de seus próprios egos e completamente distante dos Grandes Regentes de tudo. Não se permita fazer o mesmo. Estamos aqui e sempre estaremos, e quanto à vocês? Para onde teu povo está caminhando?
E com esse questionamento no ar, a foca voltou para o oceano.

~ Jully Boduogena ~