30 março, 2016

#devaneios - O Ciclo da Floresta


     Então abri os olhos e não havia mais caos. A luz do Sol acariciava meu rosto e o cheiro úmido das folhas se aconchegaram em meus pulmões. Agora eu sabia onde estava e era bem longe de casa - se é que posso chamar assim. Meus pés tocaram a terra recém banhada pela chuva e afundaram
maciamente ao encontro de pedras, galhos finos e pequenos insetos que por ali passavam. Minhas mãos - ainda trêmulas por conta dos pesadelos - agarraram firmemente os braços de uma árvore anciã que existia antes do mundo ser criado. Ali permaneci, por longos minutos - que beiravam horas - até que meu coração desacelerasse o suficiente para que eu pudesse continuar.
     "Que caminho meus pés devem seguir?" - cantarolou um pequeno sapo, me fazendo lembrar que eu conhecia essa canção de algum lugar. Eu estava feliz, porém, alguma coisa não estava certa. Eu acordei em meio às árvores, mas sei que antes disso havia algo diferente. Haviam marcas por todo meu corpo, grandes e pequenas e que provavelmente jamais sumiriam dali.
     - Bem vinda de volta, criança - uma criatura pequeníssima, do tamanho de um polegar, estava ali parada em minha frente. Não tinha sexo, era apenas o que era. Um serzinho com forma mais ou menos humana, olhos redondos e amarelados, seu nariz - espera, não havia exatamente um nariz - eram dois pequenos buracos que faziam o ar circular.
     - Estou com a sensação de que as coisas nem sempre foram como são agora. - eu disse em resposta.
     - As coisas estão como sempre estiveram. Tudo na mais perfeita ordem e caos. Pois, sem a ordem o caos não existe e sem este a ordem também não seria possível. E sem ambos, a existência não passaria de uma vã hipótese.
     Eu realmente não estava compreendendo o que aquela coisinha estava tentando me dizer. Oras, a única coisa que eu queria era andar descalça na mata, deitar no chão e me sentir abraçada pela vida que pulsava naquele lugar. Como que lendo meus pensamentos, o pequenino continuou:
     - Você estava lá e agora está cá. Chorou e agora sorri. Lembra-te de tuas dores, são elas que farão tua estadia aqui valer a pena. "Que caminho meus pés devem seguir?" - e finalizou cantarolando.
Subitamente, de maneira devastadora, eu lembrei de minhas dores. E também lembrei de minhas incertezas. E também de minhas fraquezas e meus fracassos. Como foi possível esquecer tudo que havia vivido até ali? Como foi possível esquecer de onde me vieram todas aquelas marcas no corpo?
Elas estavam ali justamente para que eu não esquecesse. Cada marca representava uma angústia diferente. "Que caminho meus pés devem seguir?" - a pergunta que me fiz a vida inteira e nunca fui capaz de decidir de maneira lúcida o bastante para não doer. No final das contas, os pés escolheram seguir o caminho das pedras afiadas e acabou se machucando.
- Parece que finalmente se lembrou. Não chore criança. O que foi não tem volta. Teus pés te levaram por caminhos espinhosos e agora você descansa no seio da mãe. A existência humana é cheia de ilusões mascaradas de fama e poder. Todos vocês caem nos truques dela e todos vocês ganham marcas inapagáveis. Eu gosto de chamar essas marcas de Intuição, já ouviu falar? Faça bom uso agora que a terá em abundância.
Então o pequenino desapareceu em meio às brumas que se formaram conforme a noite ia se aproximando. E eu permaneci ali, deitada no chão, sendo curada pela terra. Todos os meus medos estavam sendo levados junto com a chuva fina que se iniciou. Menos as marcas. Elas continuaram intactas para me lembrarem da próxima vez. Peraí, próxima vez? Então que dizer que não acabou?
     Compreendi tudo. Eu morri. Meu corpo definhou em algum lugar sombrio da existência humana, todo machucado devido aos caminhos que meu pés escolheram. Agora eu estava na Floresta da Vida, a floresta que emana à todo tempo a Grande Canção da criação, era de lá que tudo nascia e era para lá que tudo retornava. Eu estava no meio da espiral. No fluxo eterno de vida e morte e vida e morte e vida. Tudo era vida e tudo era morte. Eu fazia parte do ciclo sem fim. E ali estava novamente para ser restaurada e então devidamente equipada de minhas marcas, ou Intuição como dissera o pequenino, para novamente renascer. Eu estou na espiral, eu sou a espiral e esta, compreendi, jamais terá fim.


Por: Jully Basilio
Ao som de: Eluveitie

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