23 dezembro, 2014

#religião: O Mar sob o Sol

Tudo começou com um passeio gostoso pelo mar, sobre as costas de uma pequena e amigável foca que por ali passava e gentilmente ofereceu-me uma carona. Não sabia exatamente para onde estávamos indo, mas senti que algo bom estava à nossa espera. O sol sobre nossas cabeças e o mar fluindo à nossa volta me fez perceber que aquele não era um passeio comum. A energia aumentava e a água banhava meus pés. Definitivamente eu havia entregue todo meu ser para aquele momento único quando percebi que nós duas não estávamos sozinhas. Ao nosso lado, um senhor forte, com barba e cabelos brancos e longos, um olhar manso e um sorriso doce, fluía pelas águas calmamente. Olhou para nós duas com doçura e disse-nos: "Serei seu guia nessa viagem". E permaneceu sorrindo daquela forma aconchegante, como um pai que sente prazer em fazer um passeio com seu filho.
Por uns minutos fomos viajando pelo mar adentro, passando por belos animais. Gaivotas sobrevoavam nossas cabeças, tartarugas nadavam logo abaixo de nós. Tubarões eram amigos, golfinhos diziam "olá" para a foquinha, peixes nos rodeavam como uma ciranda ensaiada.
Estava tudo tão mágico quando de longe avistei uma ilha. Alta, bela e imponente. Maravilhei-me quando percebi que o Senhor dos Mares estava nos levando naquela direção.

Chegamos então à beira da ilha. Desci das costas do animalzinho e este permaneceu no mesmo lugar, como que à minha espera. O grande homem pegou em minhas mãos e com um gesto mostrou que ali eu era bem vinda. Olhou-me profundamente nos olhos de tal forma que encheu meu coração de alegria ao ponto de lágrimas beirarem meu olhos. Porém, o lugar, o momento e a sensação eram tão maravilhosos que nem chorar de emoção seria possível ali. Então, de mãos dadas, como pai e filha, caminhamos. Senti a grama molhada envolvendo meus pés, avistei um belo campo com milhares de macieiras, de todas as formas e tamanhos. Ao longe avistei algumas pessoas indo e vindo, felizes, satisfeitas e em perfeita sintonia com a energia daquele lugar.
O homem então disse: "um dia para cá você virá e aqui ficará". Então segurei forte em suas mãos e lhe disse: "por favor, deixe-me ficar aqui! Não quero ir embora deste lugar maravilhoso." Então ele estendeu a mão para uma grande macieira, pegou uma maçã e pediu que eu a comesse. Assim o fiz. Após comê-la, coloquei-a de volta na macieira e instantaneamente ela se reintegrou. Novinha e intacta. E então o homem disse-me: "Apenas tenha paciência, eu sou Manannan Mac Lir, senhor dos Portais entre os Mundos. Senhor desta ilha e lhe digo que certamente um dia tu retornarás para o meu lado!". Encerrou a frase com aquele sorriso aconchegante novamente e lentamente retornei para a foca que me aguardava, feliz por me ver novamente.
Então eu voltei. E após voltar daquele passeio eu estava em meio à minha tribo. Todos na mesma sintonia. Todos unidos. Todos ansiosos pelo momento de reencontrar pelo Senhor da Terra das Maçãs. Então eu percebi que aquele foi um momento único e compartilhado. Cada um de sua maneira.
Então no momento oportuno fomos todos ao encontro daquele que fora nosso anfitrião. Caminhávamos em direção ao grande Mar. O coração saltava cada vez mais forte conforme nos aproximávamos e o som imponente de sua presença era totalmente audível. Então já era possível avistar: o mar, a areia e o céu negro haviam se tornado um. Naquele escuro misterioso era possível sentir que adentrávamos um terreno de grande poder. Poder sob nossos pés, poder que nos rodeava, poder sobre nossas cabeças.
A escuridão às vezes causa medo e desconforto. Ás vezes traz à nossa mente pensamentos de morte e de possíveis coisas ruins. A escuridão nos faz lembrar que somos apenas poeira em meio à este Universo. A escuridão nos faz lembrar que estamos e somos vulneráveis a qualquer ameaça que esteja além de nossas próprias capacidades. Mas também é na escuridão que aprendemos a confiar. É na escuridão que aprendemos que o que tiver de acontecer, acontecerá, pois não estamos no controle de absolutamente nada. E foi na escuridão que ouvi vozes dizendo: "está tudo bem, estamos aqui, aconteça o que acontecer". Então sentei-me sobre a areia e contemplei aquela energia protetora rodear minha tribo, talvez sem que ninguém mais percebesse. Logo que estávamos devidamente rodeados daquele imenso poder, a calma sobre a tribo se instaurou e não demorou muito para que entrássemos todos na mesma sintonia do fogo que queimava à nossa frente.
Uma linda celebração foi feita. Manannan Mac Lyr e Áine receberam as devidas honras. E chegou o tão esperado momento de caminhar até o Mar, o portal para o Outro Mundo. Com uma simples maçã em uma mão e o coração carregado de amor, caminhei lentamente na escuridão em direção às águas. Meus pés então finalmente tocaram o mar. E ali senti um grande poder subindo pelas pernas até chegar à cabeça. E naquele momento, quetinha, com os olhos fixos na escuridão em movimento, após a nona onda, lancei minha maçã ao Mar e ali ela foi de encontro ao coração do Grande Senhor que ali habita. A vontade era de caminhar cada vez mais fundo, mas lembrei que "eu precisava ter paciência".
E assim foi uma parte da celebração de Solstício de Verão da minha tribo amada. Um momento emocionante e único que ficará na memória para todo o sempre. Serei eternamente grata aos Deuses por terem colocado essa tribo em minha vida. A caminhada pode ser árdua, as pedras podem ser grandes, o inverno pode ser frio e o sol pode ser escaldante, mas tendo vocês ao meu lado qualquer obstáculo será melhor de ser vencido.
Gratidão Deuses, gratidão Não-Deuses, gratidão Ramo de Carvalho ♥