08 julho, 2014

#mitologia: As Invasões da Irlanda - Parte I

O post de hoje será baseado em minha leitura do texto "As Invasões da Irlanda - Mitologia: parte I" escrito por Wallace.

O estudo da Mitologia Celta:
Existe um fato sobre a mitologia celta que dificulta seu estudo: Tudo que sabemos sobre este povo NÃO foi escrito por eles mesmos, justamente porque não possuíam o hábito de escrever suas crenças, lendas, mitos e etc. Toda informação referente aos seus mitos que temos acesso hoje, foi escrita por monges cristãos descendentes dos celtas, mas ainda sim cristãos e isto significa problema.
Bom, o problema em si é que pelo cristianismo ser uma religião completamente diferente da religião cultuada pelos celtas, muito foi alterado, muitos fatos foram tratados com descaso e preconceito. Muitos contos se perderam no tempo.
Muitos detalhes sobre a espiritualidade celta foi jogado ao vento por não ser interessante aos monges. Muitas histórias foram alteradas e adaptadas à crença cristã para que isso fizesse algum sentido para o povo irlandês, já convertido ao cristianismo.
Mas, falando da mitologia gaélica irlandesa especificamente, é a mais ampla dentre todas as mitologias célticas, talvez devido ao fato de ser uma ilha mais isolada e nunca foi dominada e habitada pelos romanos(ainda bem!), sendo assim, quando o cristianismo chegou por lá, a ilha ainda possuía aspectos tribais fortes. Após os monges católicos registrarem os contos bíblicos e se assegurarem que o cristianismo estava fortemente firmado na Irlanda, eles passaram a registrar também alguns contos celtas, agregando-os à sua cultura cristã.
Claro que nessa de cristão escrever sobre pagão, muitas coisas foram alteradas e adaptadas para que pudessem ser "encaixadas" no cristianismo irlandês. O famoso sincretismo, que ocorreu não só com a mitologia celta/cristã, mas com várias outras pelo mundo a fora. O que é uma tristeza, pois muitas informações importantes, principalmente referente à espiritualidade em si acaba se perdendo neste processo.

O Livro das Invasões da Irlanda:
A base dos contos mitológicos irlandeses é o chamado Leabhar Gaballa Érenn(nem se quer imagino como se pronuncia isso :), pois quando se trata de gaélico, galês, gaulês, bretão, irlandês ou whatever que tenha ligação com língua celta, nem sempre é o que parece rs(Ex.: Sídhe, pronuncia-se "chi")), ou "O Livro das Invasões da Irlanda", que está registrado no Livro de Leinster(ca. 1160), no Livro de Ballymote(ca. 1390), no Grande Livro de Lecan(entre 1397 e 1418) e no Livro de Fermoy(séc. XIV).
Infelizmente neste livro não é contado sobre como os deuses moldaram o mundo(não podemos nos esquecer que tudo isso foi compilado por monges cristãos) e nem sobre como a Irlanda foi criada, nos textos simplesmente ela é citada como sempre existente.
As lendas por estarem registradas em vários manuscritos diferentes e em datas diferentes, há algumas variações porém, a base da lenda sempre é: A invasão da Irlanda por povos diferentes até a chegada dos gaélicos, que seriam os filhos de Míle Spaíne, ou "Soldado da Espanha" que seria o patriarca da Irlanda, segundo as lendas(mas isso é um assunto para um post futuro).
Bom, abaixo segue o conjunto de invasões da Irlanda:

"Céssair"de Jim Fitzpatrick
Invasão de Céssair:
A primeira invasão registrada pelos cronistas é a de Céssair, uma suposta neta de Noé, filha de Bith, que fugiu de barco para a Irlanda para escapar do dilúvio. Sua frota era composta por 3 navios, porém apenas 1(o seu próprio) consegue aportar na Irlanda, levando consigo 49 mulheres, Fintán, o filho de Bóchra, o seu pai, Bith, e o marinheiro, Ladra. Apesar dos esforços, o Dilúvio alcança a Irlanda e mata à todos, com exceção de Fintán mac Bóchra, pois, este possuía capacidades mágicas suficientes para se transformar em um salmão e sobreviver. Fintán continua sendo citado nas lendas irlandesas como uma testemunha da história da ilha.
Apesar de estar BEM claro que esta lenda teve um dedo cristão(Noé e o Dilúvio bíblico), temos alguns pontos interessantes para analisar:
- A própria Céssair. Embora ela seja peça chave nesta lenda, em nenhum momento ela é citada na bíblia ou em qualquer texto judaico antigo. Ou seja, pode ser entendido que ela seja nativa da Irlanda e possa até mesmo ser uma manifestação de uma deusa ctônica(ligada à Terra) nativa e anterior, que obviamente, os monges a "mascararam" para poder ser incluída na lenda.
- A Irlanda é descoberta graças à sua "viagem". Ela é filha de Bith, que significa "mundo"(em céltico antigo e gaulês, bitus), outro personagem que não é citado na bíblia e que nos dá a evidência de que sua lenda tenha sido juntada à lenda de Noé, e obviamente, alterada para que pudesse condizer com com as idéias da religião dos monges.
- Céssair, seria então, a filha do Mundo, e através dela a Irlanda viria a existir, mitologicamente. Outro fato interessante é o de Fintán, seu marido, sobreviver por várias eras do mundo, o que é uma evidência à ideia dos Indo-Europeus, de que aquele que "aquele que é fiel às Musas recebe a vida eterna".


Invasão de Partholon:
Esta lenda também nos deixa vários questionamentos. Assim como Céssair, Partholon, segundo a lenda, é um descendente de Noé que aporta na Irlanda com seu povo e 3 filhos. Eles vivem em paz durante um tempo, até que começam a ser perseguidos pelos seres primordiais Fomorianos(ainda farei um post só para eles, mas já adianto que são monstruosos. Os cristãos de hoje(não sei os da época) os chamariam de demônios, ou os famosos "anjos caídos" rs). O povo de Partholon vence a guerra, porém, são dizimados por uma praga. E, assim como na lenda de Céssair, também apenas um homem sobrevive, neste caso, Tuán mac Cairill, que assim como Fintán, sobrevive à várias eras do mundo e atua como testemunha das histórias da Irlanda.
Pontos a serem analisados:
- O nome Partholon não é nativo da Irlanda, pois, nomes gaélicos antigos não são inciados com P(mais uma evidência do dedo cristão na lenda).
-  Mesmo que Partholon não seja nativo, existe a citação de que seu povo "criava" planícies pela Irlanda. Assim como em outras lendas celtas, sempre há este "indício" de que a Terra vai sendo moldada pelo povo que nela vive.

A invasão de Nemed:
Esta invasão é uma das duas mais importantes, junto com a dos Milesianos(futuro post sobre...) mitologicamente falando. Pois, as outras dependem desta. As invasões de Céssair e Partholon deixaram apenas 1 testemunha cada, diferente da invasão de Nemed.
O povo de Nemed (que, de alguma forma, era aparentado do povo de Partholon) chegou à Irlanda e sob sua própria liderança, venceram 3 grandes batalhas contra os Fomorianos. Após isto, seu povo abriu planícies, criaram rios e moldaram a paisagem da Irlanda. Porém, após a morte de Nemed, seu povo voltou a guerrear com os Fomorianos e após uma batalha na ilha Tory, novamente um dilúvio atingiu a Irlanda, porém dessa vez o povo conseguiu escapar, e, posteriormente, voltar à Irlanda.
A partir desta lenda, um ciclo mitológico importante começa se desenvolver(este é o assunto para a parte II ;) ). Nemed, significa nada mais nada menos que "o Sagrado", e as próximas invasões serão feitas por dois povos descendentes de Nemed, ou seja, "filhos do Sagrado"(os Deuses).
Algo importante a observar aqui é que, por mais que sua chegada tenha sido mais vitoriosa que as anteriores, e por mais que tenham vencido 3 batalhas contra os Fomorianos, ainda assim foram derrotados(não exterminados, como já dito acima, eles conseguiram fugir e posteriormente voltariam em dois povos diferentes(assunto pro post da parte II)) por um dilúvio, ou seja, o mar. Os Fomorianos(que significa debaixo do mar(fo-muir)) são habitantes do mar, criaturas primordiais, forças hostis da natureza e, neste ponto, entendemos que o povo de Nemed não havia entrado em acordo com a Terra, mas sim lutado contra e sendo derrotados pelo próprio mar.
Isto deixa claro que, ainda havia um ciclo a ser desenvolvido. Lições a serem aprendidas e o retorno do antigo povo de Nemed (posteriormente divididos em dois e chamados de Fir Bolgs e Thuata de Dannans) iriam completar este ciclo mitológico. Massssss, como eu disse, este assunto é para um próximo post :)
Bom, o texto ficou imenso, mas tentei escrever o mais claro possível. Pois, de fato, este é um assunto imenso, existem inúmeros contos mitológicos e sempre que eu puder escrever por aqui, o farei.
Caso eu tenha escrito algo equivocado ou tiverem alguma dúvida, deixem um comentário que eu responderei com certeza.

Agradecimentos especiais ao Wallace(Ramo de Carvalho) pelos textos deixados para estudo.



~~* Jully Basilio *~~